Sábado, 11/10/2008
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Entrevista com Roberto Minczuk
Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?
ROBERTO MINCZUK – 1998 foi um ano-chave para mim. Estreei como regente assistente da Filarmônica de Nova York, um cargo que eu havia ganho por concurso no ano anterior. Regi meu primeiro concerto com eles em julho de 1998, ao ar livre para 90 mil pessoas no Central Park. Aí que comecei minha carreira internacional. Nesse mesmo ano, era regente-titular da Sinfônica de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e diretor-artístico adjunto da Osesp, um trabalho que havia começado em 1997. John Neschling ainda passava pouco tempo no Brasil, pois tinha cargos na Europa. Isso fazia com que eu tivesse responsabilidade grande em São Paulo frente à Osesp. Quando venci o concurso de Nova York, pedi para sair da Osesp porque não achava que daria conta. Mas Neschling insistiu que eu ficasse. Ele concordou que eu tivesse liberdade de ir e vir e acabei ficando. Minha empresária em Nova York dizia que eu deveria mudar para os Estados Unidos o quanto antes. Eu achava que era cedo, eu estava empolgado com o projeto de São Paulo. Eleazar de Carvalho costumava dizer aos alunos: “no começo, rejam onde quer que sejam convidados. é importante adquirir horas de vôo”. Então, eu estava tendo “horas de vôo” desde “máquinas” mais simples e menores, como a Sinfônica de Ribeirão Preto, até os “caças americanos”, como a Filarmônica de Nova York. Meus planos na época eram reger, reger, reger, adquirir experiência e desenvolver a arte.
É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?
ROBERTO MINCZUK – Foi uma década de muitos fatos novos e relevantes. Em 1998, a estréia com a Filarmônica de Nova York e a reabertura do Theatro São Pedro, com “Cenerentola”, uma das primeiras óperas que eu regi. No mesmo ano, trabalhei pela primeira vez com Nelson Freire e Antonio Meneses. Em 1999, dias antes da inauguração da Sala São Paulo, regi pela primeira vez a abertura do Festival de Campos do Jordão. O concerto foi transmitido pela TV. Meu primeiro concerto na nova sala também foi marcante. Minha estréia em Viena, em janeiro de 2002, foi interessante. Fui convidado para reger a Orquestra Tonkünstler na Musikverein, fiz uma proposta de vários programas, mas eles queriam a sétima sinfonia de Bruckner. Eu nunca tinha regido a obra e iria fazer minha estréia em Viena justo no lugar onde o próprio Bruckner regeu? Sugeri a quarta sinfonia, mas não teve jeito. Estudei bastante e cheguei apavorado. Os músicos tocavam de cor. O spalla me contou que a orquestra havia acabado de fazer uma turnê com a música. Quando se rege uma orquestra pela primeira vez, o ideal é fazer uma peça que não tenha sido tocada recentemente e que você conheça mais que eles. Estava tudo contra. Mas foi fantástico. Decorei a sinfonia, regi de cor, a apresentação foi ótima e tive críticas elogiosas.
Em julho de 2003, tive uma estréia fantástica à frente da Orquestra da Filadélfia, uma das “Big Five” (nota: as cinco principais orquestras americanas). Em novembro de 2003, estreei com a Filarmônica de Londres e, em 2004, com a Orquestra Filarmônica de Israel.
Ter assumido a direção do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão em 2004 e resgatado sua vocação inicial de formação de jovens músicos foi um marco. Ouvir Kurt Masur reger a Orquestra Acadêmica do festival na Sala São Paulo 2005 foi muito impactante. O concerto inaugural como diretor artístico da OSB em 2005 me fez sentir no lugar certo, na hora certa, fazendo aquilo que tinha que fazer. Em 2007, a minha estréia com a Orquestra de Cleveland – outra “Big Five” americana – a minha estréia em Paris, à frente da orquestra da Radio France no Teatro de Champs-Élysée com as irmãs Labèque e a o convite para assumir a direção artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Novamente, algo de extrema responsabilidade, num momento crucial da instituição, que vai atravessar uma reforma e celebrar seu centenário em 2009.
Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?
ROBERTO MINCZUK – Sair de São Paulo e me mudar para o Rio de Janeiro. Essa foi uma decisão importante e foi um acerto.
O que o Roberto de hoje diria ao Roberto de dez anos atrás?
ROBERTO MINCZUK – Jamais abrir mãos dos seus princípios, do que você acredita. Não desistir dos seus sonhos e suas convicções e nem dar muita atenção à opinião alheia. Eu diria: “Roberto, não fique abalado com o que as pessoas estão achando por que não vale a pena. Você pode até ouvir a opinião delas, mas não seja influenciado”.
Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.
ROBERTO MINCZUK – Um deles foi a “Missa Solene” de Beethoven, que eu regi na Sala São Paulo em 2000. Foi o concerto de abertura da temporada e é uma obra monumental, uma obra que representa muito na vida do compositor, um momento de acerto de contas com Deus. Essa obra mexeu muito comigo. Eu vi esse lado humano do Beethoven, a angústia, como o dilema traduz a sua música. Se quem vai ao concerto e ouve – naquela uma hora que a pessoa está ali ouvindo – já fica transformado, imagine quem gasta horas e horas, noites estudando.
Tem planos para a próxima década?
ROBERTO MINCZUK – O objetivo principal é estruturar e fortalecer as instituições de que estou a frente. Um trabalho realmente bem feito é o que perdura mesmo quando a pessoa que iniciou e fortaleceu foi embora. Por que a Orquestra de Cleveland é o que é? Porque George Szell fez um trabalho tão bom que, ainda hoje, ela continua sendo uma das melhores. O sucesso pessoal é algo muito prazeroso, que acontece, mas é algo que também engana. O sucesso da instituição e de todos que estão nela é algo que me preocupa. Ter todas as pessoas que trabalham comigo satisfeitas, desempenhando seu melhor e ganhando bem, com muito orgulho e acreditando que aquilo vai continuar. Acho que esse é o objetivo principal e não é fácil. O OSB atravessa um período muito importante, vai assumir sua sede na Cidade da Música. É o momento de garantir a sustentabilidade e a continuidade desse trabalho por décadas à frente. E, agora, com o Theatro Municipal do Rio, também, devemos assegurar o bom funcionamento da instituição. Que seja um teatro de ópera funcionando bem e brilhando como centro de criatividade. Um lugar onde uma sociedade se reúna para celebrar a vida pela música. Objetivos pontuais são fazer grandes espetáculos e poder registrá-los em DVD e CD, ter transmissões pela televisão e conseguir atingir um número cada vez maior de público, não somente o especializado, mas difundir o que ainda não conhece, que deseja e precisa conhecer.
Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?
ROBERTO MINCZUK – O investimento do governo do estado de São Paulo foi a coisa mais relevante que aconteceu na música. O investimento na Sala São Paulo, na Osesp, no Festival de Campos do Jordão, no Centro de Estudos Musicais Tom Jobim. Todas realmente bem sucedidas e servem de exemplo para o Brasil todo. Vê-se o reflexo disso com o governo da cidade do Rio de Janeiro, que, a exemplo do governo do estado de São Paulo, adota a principal orquestra do Rio, a OSB, e toma a decisão de construir um grande teatro para ser a sua sede. É possível ver ações semelhantes em Belo Horizonte. Trata-se de um movimento em que uma instituição puxa a outra. A concorrência realmente faz com que o nível seja elevado. Percebo também um movimento grande entre jovens, que vem do fato de ser possível ganhar bem se você for um bom músico e tocar em uma boa orquestra. Isso incentiva os jovens.
Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?
ROBERTO MINCZUK – O ANUÁRIO VIVAMÚSICA! coincidiu com essa época de “revolução cultural” na música clássica. O período anterior à última década foi dos mais decadentes que o País atravessou. O ANUÁRIO chega justo no momento em que acontece um reavivamento da música, quando são tomadas decisões importantes de transformar a realidade. Ele foi fundamental por ser um compêndio com todas as referências. Foi fundamental ter a disposição uma relação de todas as instituições musicais do país, das pessoas que estão à frente, seus nomes, endereços, telefones. Ter esse guia tão completo e abrangente que relaciona tudo que existe na música de forma tão fácil, útil e organizada. Pela primeira vez, o Brasil ganhou tal manual de referência. Esta visão do conjunto não existia antes.
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