Quinta-feira, 28/08/2008
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Entrevista com John Neschling
Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?
JOHN NESCHLING – Em 1998, eu acumulava três postos. Já estava no Brasil envolvido com a Osesp desde o ano anterior. Mas ainda não tinha completa segurança que a Osesp pudesse ficar da forma que ficou. Devo ter passado, no máximo, umas dez semanas em São Paulo. Minha carreira ia muito bem na Europa. Eu era diretor do Teatro St. Gallen, na Suíça, e diretor da Ópera de Bordeaux, na França. Fazia muitas turnês e trabalhava em muitas casas de ópera. Havia recém-inaugurado a temporada lírica da Arena de Verona, na Itália, por exemplo. Naquele momento, o Brasil exercia atração mínima. Eu tinha pouca esperança que o projeto com a Osesp vingasse. Em 1997, 1998 e 1999, o projeto Osesp se consolidaria e indicaria que eu poderia me dedicar mais intensamente à Osesp.
É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?
JOHN NESCHLING – Todos os fatos relevantes na minha vida estão evidentemente ligados à Osesp, fazem parte da cronologia da orquestra – dificilmente eu teria outras coisas a citar. Eu acompanho a Osesp e a Osesp me acompanha há 10 anos. Somos unha e carne.
O meu primeiro concerto em 1997. Em 1999, a inauguração da Sala São Paulo. O primeiro disco com obras de Camargo Guarnieri que fizemos para a gravadora sueca Bis. A primeira turnê no exterior em 2000, pela América Latina. Depois tivemos as turnês americana em 2002, européia em 2003, cone sul em 2005, outra turnê americana em 2006 e outra européia em 2007. A turnê brasileira em 2004 foi um grande evento. As conquistas da estruturação gradual da orquestra, a Fundação OSESP. Quando saíram as primeiras partituras que editamos. O início das aulas na Academia Osesp, que é o sine qua non da orquestra: se não houver academia ou a orquestra acaba em dez anos ou será uma orquestra estrangeira. Temos que formar músicos brasileiros bons, porque os estrangeiros vão embora com o tempo não dão continuidade nem estruturam a orquestra.
Estrutura quem dá são os brasileiros.
Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.
JOHN NESCHLING – Dois compositores que me marcaram profundamente no contato pessoal: o polonês Krysztof Penderecki e o americano John Corigliano. Trabalhei com eles proximamente na Osesp. Eles estiveram aqui, regeram, assistiram aos concertos. Ficaram muito ligados à orquestra. Penderecki e Corigliano são grandes criadores que têm ao mesmo tempo noção de sua grandeza e mantêm uma certa humildade. Não são pernósticos nem pretenciosos.
Dez anos atrás você se imaginaria onde está agora?
JOHN NESCHLING – Se eu não imaginasse, eu não teria feito tudo isso. Todos os detalhes da Osesp já estavam na minha cabeça em 1997. Nem sempre eu acreditei que fosse possível implementar, mas eu o objetivo estava muito claro. Eu tinha o roteiro do filme, mas são sabia se conseguiria filmar e se realizaria todos os efeitos especiais que imaginava.
Eu sabia exatamente o que queria. No primeiro fax que eu mandei para o secretário de cultura Marcos Mendonça, por exemplo, eu já falava na Academia Osesp.
Algum sonho em especial que tenha realizado nessa década?
JOHN NESCHLING – Este local onde você está sentada nesse momento, a Sala São Paulo, e tudo que acontece aqui.
O que o John Neschling de hoje diria ao Neschling de dez anos atrás?
JOHN NESCHLING – Eu jamais diria que não perseguisse os objetivos com o mesmo empenho, com a mesma clareza, com a mesma intolerância. Talvez eu pudesse ter sido um pouco menos explosivo. Mas se eu fosse cordato demais eu não faria a Osesp. Os males vieram para o bem naquele momento. Hoje eu sou uma pessoa diferente daquela que fui dez anos atrás.
Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?
JOHN NESCHLING – Algumas decisões foram traumáticas. Eu acho que o principal acerto foi contratar as pessoas que estão até hoje comigo e me livrar das pessoas que não estão mais comigo.
Tem planos para a próxima década?
JOHN NESCHLING – Ser feliz e ter saúde. Chegando aos 61 anos, não é mais um garoto que fala. É um senhor que espera ser saudável e estar bem. Se for com a Osesp, melhor. Se for sem a Osesp, que esteja saudável, tranqüilo, trabalhando, feliz e calmo, com a família por perto, que é importantíssimo.
Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?
JOHN NESCHLING – A Osesp foi “a” mudança significativa nesses dez anos. Mas tenho a impressão que foi conseqüência e causa também. A Osesp foi causa de um enorme renascer de orquestras no Brasil. No Brasil no começo dos anos 1990 não havia mais orquestras, elas estavam decrépitas. Bem antes, nos anos 1970, houve uma espécie de renascimento com a Orquestra da Paraíba. Depois, nos anos 1980 e 1990, uma decadência. As orquestras estavam em petição de miséria. Levou mais tempo do que eu imaginava para a Osesp se tornar um exemplo. Eu achava que fossemos ser um exemplo imediato para cidades que já tinham uma certa tradição sinfônica como Rio de Janeiro, Porto Alegre, talvez Brasília. Demorou um pouco para a reação vir, mas a Osesp convenceu as pessoas que é possível fazer um trabalho assim. Orquestras em Minas Gerais, Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro estão melhores, estão investindo mais. Nem todas estão fazendo do modo que eu faria, mas isso não importa. Aqui em São Paulo, nós mudamos o panorama da cidade. Hoje, é uma das cidades musicalmente mais vivas que eu conheço no mundo inteiro: o número de concertos que se tem aqui, seja de câmara, sinfônicos, orquestras convidadas, grupos convidados, solistas, é incrível. A única coisa que faz falta ainda é ópera, mas que parece que esse ano será melhor. A causa da Osesp foi uma circunstância estrelar muito boa com Mario Covas e Marcos Mendonça, depois a sorte de ter tido Alckmin. Construiu-se uma coisa que dificilmente pode ser destruída. Então, essas foram as causas. Já conseqüência do processo é que outros começam a pensar no mesmo modelo administrativo. A excelência artística deve vir sempre antes, ainda que necessite inicialmente ao menos de uma pequena mudança administrativa. Provamos a excelência no dia-a-dia, com os discos, as viagens, os concertos, as assinaturas. Demorou oito anos para a fundação sair. Só agora temos uma grande excelência de administração. Por enquanto, somos os únicos a ter esse tipo de modelo. Mas tenho certeza que outros vão nos seguir com o tempo, pois não há outro modelo possível de estar ligado ao estado, mas com liberdade de ação e sem burocracia.
Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?
JOHN NESCHLING – Acho que VIVAMÚSICA! é exatamente como a Osesp: é causa e conseqüência. VIVAMÚSICA! não teria espaço em um país em que não houvesse música. Ao mesmo tempo, um país com música precisa de VIVAMÚSICA!: profissionalizada, moderna, com comunicação ágil pela Internet. O ANUÁRIO é a grande referência que temos de tudo que acontece no Brasil. É um referencial muito grande, com informações compiladas e entrevistas. Indica um país desenvolvido musicalmente. É o Musical America do Brasil. Hoje em dia, não consigo mais trabalhar sem o Musical America e sem o ANUÁRIO VIVAMÚSICA!.
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