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Quinta-feira, 28/08/2008

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Entrevista com Fernando Portari



Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?

FERNANDO PORTARI – Em 1998, minha carreira começava a se firmar. As pessoas estavam começando a olhar para mim como um início de referência. Eu havia estudado na Alemanha entre 1992 e 1994. Quando voltei, fui direto para São Paulo. Luiz Fernando Malheiro e Jamil Maluf estavam fazendo um importante trabalho de base lá. Eles não queriam mais que o Brasil fosse uma réplica ridícula do La Scala de Milão ou uma alegoria barata de uma coisa européia. Em 1998, estava morando em São Paulo e trabalhando muito. Meu pai me ensinou a ter uma visão de longo prazo, coisa que ainda falta no País. Naquele momento, eu começava a planejar uma carreira sólida em longo prazo. Tinha 31 anos e estava muito preocupado com a questão técnica. Eu sempre fui, graças a Deus, muito consciente do limite e da importância de se pensar a longo prazo. Mas eu sou uma exceção, eu tive uma formação muito sólida no canto lírico, coisa que o brasileiro não tem.


É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?

FERNANDO PORTARI – Tive uma grande alegria em 1998, que foi cantar “La Bohéme” com a soprano Rosana Lamosa, minha mulher. Foi maravilhoso, um marco na minha vida. Estreamos no Teatro Alfa Real, nunca havido sido feito ópera lá. Era produção do Jamil e direção do Jorge Takla. Rosana e eu havíamos nos apaixonado cantando uma montagem de “O Elixir do Amor”, no ano anterior. Estamos juntos desde então. Em 1998, cantei em Veneza pela primeira vez para cantar o Jacquino de “Fidélio”. Foi meu primeiro papel europeu, fora da Alemanha. Cantar na primeira ópera que a Osesp fez, “La Cenerentola”, com John Neschling e Roberto Minczuk regendo, ainda no Theatro São Pedro também foi um importante. A gravação do oratório “Colombo”, de Carlos Gomes, na Escola de Musica da UFRJ em 1998. O “Condor” que fiz em no Festival Amazonas de Ópera com Malheiro em 2002. A “Magdalena”, de Villa-Lobos, também no festival de Manaus. Fiz também “Os Contos de Hoffman” em 2003, que foi importante em São Paulo. No Rio, o “Idomeneo”, com André Heller, em 2006. Ano passado, tive a oportunidade de cantar com Anna Netrebko e Daniel Barenboim em Berlim. Isso me abriu muitas portas.


Algum sonho em especial que tenha realizado nessa década?

FERNANDO PORTARI – Eu nunca pensei: “ah, um dia vou cantar no La Scala de Milão”. Minha preocupação diária é cantar bem, isso sim é uma obsessão. Fico orgulhoso quando consigo. Se é que existe um sonho, seria cantar com o Plácido Domingo. Já quase tive essa oportunidade, mas foi antes do período sobre o que estávamos conversando. Em 1990, Fernando Bicudo trouxe Domingo para fazer uma “Carmen” no Rio e em Manaus. Bicudo me disse: “Quero que você faça Carmen com ele em Manaus, dividindo o papel de Dom José”. Fiquei desesperado. Aldo Baldin tinha me convidado para ter aulas na Alemanha na mesma época e eu dispensei o convite. Aldo reagiu muito mal, me alertando que a récita nada acrescentaria à minha formação. Mas era meu sonho! Houve a récita do Rio, conheci Domingo, ele me ouviu, disse que em Manaus teríamos tempo de ensaiar. Após a récita do Rio, veio o Plano Collor. O governo confiscou o dinheiro dos cidadãos e a récita de Manaus foi cancelada. Ainda tenho o programa impresso com meu nome junto do dele. Esta é a única frustração que eu tenho na minha vida no canto lírico. Se tenho um desejo na vida, é poder estar com o Plácido Domingo, dividindo palco ou sendo dirigido por ele.

Um sonho realizado na década foi o reconhecimento das cidades que eu amo de paixão, São Paulo e Rio de Janeiro. Foi São Paulo que me deu a oportunidade de desenvolver toda a minha carreira em um momento crítico, que é o da formação. O cantor acha que sai da escola e está formado, mas ele começa a entender o sentido, a mecânica e a arte do canto aos 40 anos. Eu não ligo para muitas coisas, mas disso eu tenho um grande orgulho: conquistei um lugar para mim mesmo, de um cantor consciente da sua história. O canto lírico é uma arte importada e eu conseguir ser um cantor brasileiro. Não tento ser o arremedo de um cantor italiano, ou uma cópia barata de Plácido Domingo. Eu tenho prazer em ser um cantor brasileiro, carrego comigo, na minha arte, na minha forma de ser, na minha forma de atuar, toda a minha história relativa a onde nasci e às coisas que eu vivi.

Isso me traz muito orgulho e espero que eu traga essa consciência para as novas gerações. Sou professor, faço questão de ser. Minha mãe me ensinou a ler e a tocar piano. Meu pai me ensinou a cantar. Tive dentro de casa o ofício do mestre, do professor. É o ofício mais generoso.


Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?

FERNANDO PORTARI – Pode parecer banalmente romântico, mas não é: foi ter investido em minha relação com Rosana. Foi por meio dela que consegui ter maturidade emocional para enfrentar os grandes desafios que a vida tem me colocado. Rosana é uma grande companheira, o amor da minha vida. Sempre apoiando, falando: “vai por ali, tenta fazer isso aqui, isso aqui pode melhorar”. Ela conhece o meio, é uma grande cantora.


O que o Fernando Portari de hoje diria ao Fernando de dez anos atrás?

FERNANDO PORTARI – Eu diria: “Continue estudando e abra a mente”. Existe um paradoxo no canto: você vai cantando e criando códigos, criando verdades. Você pensa: “Ah, isso deu certo, então é assim”. Se não prestar atenção, ao mesmo tempo em que cresce e as coisas acontecem, a tendência é cristalizar aquilo. A arte do canto é de performance. Não é antes, não é depois, não é no meio. É ali, na hora. Quem viu, viu. Existe um paradoxo na performance: usar o que eu sei ou continuar experimentando o que eu não sei? Esse equilíbrio é que é o estudo, é a eterna busca de uma forma melhor. Então, eu diria assim: “Não pare. Não pare porque não terminou”. E diria para ter um pouco mais de calma interna, pois dez anos atrás eu não tinha. Se sou uma pessoa desesperada hoje, imagine em 1998.


Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.

FERNANDO PORTARI – Sempre tive muita sorte. Aconteceram encontros mágicos. Roberto Minczuk, por exemplo, que conheço há quinze anos. Temos percorrido juntos esses anos todos. Uma amizade tanto pessoal quanto musical que tem dado frutos maravilhosos. Com John Neschling fiz uma “A Criação” de Haydn inesquecível. Já mencionei Jamil Maluf e Malheiro. Cláudio Cruz me deu a oportunidade maravilhosa de estrear como régisseur no ano passado. No Rio, os maestros Henrique Morelenbaum e Isaac Karabtchevsky foram sempre importantes na minha vida. Com colegas, além de Rosana, poderia citar Sandro Kristofer e Paulo Szot. Em contar, claro Anna Netrebko e Barenboim.


Tem planos para a próxima década?

FERNANDO PORTARI – Espero ter saúde. Ainda tenho muitas coisas a aprender e a vivenciar dentro do canto lírico. Quero avançar no meu compromisso com a evolução da mentalidade a respeito do canto lírico no Brasil. Temos grandes possibilidades, as organizações estão se estruturando melhor. Os teatros estão começando a se desburocratizar. Creio que, em 30 anos, o universo do canto lírico poderá ter sua autonomia. Ele ainda é muito dependente da política, é muito desarticulado. Precisamos parar de esperar que o Estado, como um pai, venha e ofereça oportunidades. A sociedade civil é que tem que tomar a frente. São as pessoas que têm que gerir.


Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?

FERNANDO PORTARI – A mudança radical do status do músico clássico. Como a sociedade brasileira hoje vê um músico e vê a música clássica. Quem determinou isso foi a Osesp. Dez anos atrás, não havia esse frisson de ouvir a música, de entender o ambiente, de participar. Ir a um concerto é algo social. Não é simplesmente ouvir música, é observar o ambiente, as pessoas que estão ali, a aura que fica no ar.


Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?

FERNANDO PORTARI – A história da música clássica no Brasil está estruturalmente relacionada ao Estado. Os conservatórios mais importantes são todos ligados ao governo e à mentalidade burocratizante, que cria castas. VIVAMÚSICA! chegou dizendo: “Existe uma visão autônoma fora desse dito meio”. Trouxe a possibilidade da comunicação. A arte que não comunica é exercício puro de narcisismo. Vocês funcionam como instrumento para se discutir com inteligência as possibilidades de criar um universo mais interessante para nós mesmo. O ANUÁRIO VIVAMÚSICA! trouxe lá do norte até o sul uma idéia, um panorama e um perfil do que é o músico brasileiro. Encontramos um colega de conservatório trabalhando agora em Minas Gerais, acompanhamos o movimento musical em diversas cidades que nem sabíamos acontecer. Tenho um grande respeito e uma admiração profunda por vocês. Vocês fazem comunicação inteligente, sem ranço, querendo dialogar, querendo colocar as questões para a sociedade. E ela mesma é que vai encontrar as suas soluções.




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