Sábado, 11/10/2008
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Entrevista com Edino Krieger
Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?
EDINO KRIEGER – O ano de 1998 foi marcante para mim pois completei 70 anos. Com esta idade, o serviço público determina uma aposentadoria compulsória, também conhecida como “expulsória”. Fui defenestrado da Funarte quando eu ainda tinha uma série de projetos. O governo entende que, aos 70 anos, o funcionário não presta mais. Você recebe o bilhete azul e, no dia seguinte, já não pode mais ir trabalhar. É uma situação muito desconfortável. Por outro lado, pensei que poderia passar a cuidar da minha música. Até aquele momento, eu havia cuidado da música dos outros realizando projetos na Funarte voltados para valorização da criação musical brasileira como um todo. Passei a ter mais tempo para mim, para minha música e para organizar um pouco a minha bagunça. Mas logo em 1998 fui eleito presidente da Academia Brasileira de Música (ABM) e comecei, outra vez, a cuidar dos outros. Fiquei lá cinco anos. Nesta época, iniciaram-se várias atividades na ABM como realização de concertos, edição de revista e organização de um banco de partituras de música brasileira. Algumas idéias eu havia iniciado na Funarte, como o banco de partituras do projeto ProMemus. Ele transformou-se no projeto “Memória musical brasileira” na ABM e lá está até hoje, um dos melhores serviços prestados de difusão de música brasileira. Além da Academia, me envolvi com outras atividades, mas sempre tendo um espaço melhor para o meu próprio trabalho de criação.
É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?
EDINO KRIEGER – Sou péssimo para datas, mas vamos tentar. Neste período, tive encomendas de obras importantes, como, por exemplo, nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, em 2000. Minha peça foi estreada em Porto Seguro no próprio dia 22 de abril, parte das comemorações oficiais. Também no ano 2000, participei de um festival importante organizado pela Universidade de Música de Karlsruhe na Alemanha que celebrava os 500 anos do descobrimento. Tive várias obras executadas. Na ABM, além de iniciar os projetos já citados, é importante mencionar a compra de uma sede própria. Desde a fundação da Academia por Villa-Lobos, em 1945, não havia local próprio para as reuniões e atividades. Em 1998, a ABM funcionava em um espaço alugado dentro da sede do Pen Club, no Rio. Instalações muito bonitas, mas o espaço era mínimo. Fiz pessoalmente a pesquisa para identificar um local adequado a sediar nossa instituição. O Ministro da Cultura de então, Francisco Weffort, sinalizou com apoio para reforma de um imóvel. Saí a procura de imóveis reformáveis, que pertencessem à União, ao Estado ou ao Município, que pudessem ser doados, mesmo em comodato. Para surpresa de todos, nada foi encontrado. Sabíamos da existência de dezenas de imóveis públicos fechados, necessitando de reforma, mas a burocracia era tanta que desistimos. No ano 2000, as obras de Villa-Lobos foram muito executadas no exterior. Recebemos um valor elevado de direitos autorais – a ABM é herdeira dos direitos villalobianos –, o que permitiu a aquisição de um imóvel. Encontramos um bom andar em edifício comercial na Lapa, no centro do Rio de Janeiro, próximo à Sala Cecília Meireles, ao Theatro Municipal e à Escola de Música da UFRJ. Na época aquisição, a Academia era presidida pelo musicólogo José Maria Neves, que morreu em seguida. Eu era seu vice e reassumi a presidência. Outro momento especialmente significativo desta década foi ter tido um concerto estreado pelo violoncelista Antonio Meneses em 2007, com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Foi realmente muito importante. O concerto tinha sido escrito há alguns anos e esperava uma oportunidade para ser apresentado. Ano passado, Antonio conseguiu tirá-lo da gaveta e estudar. É um prêmio ter uma obra tocada por um solista dessa categoria. E a orquestra também foi muito bem trabalhada pelo maestro Roberto Minczuk. Foi um dos pontos culminantes desses últimos dez anos.
Dez anos atrás você se imaginaria onde está agora?
EDINO KRIEGER – Difícil fazer esta avaliação. Sempre me considerei uma pessoa fiel a determinado objetivo e princípio: valorizar a música brasileira. Talvez esta tenha sido minha principal contribuição em tantos anos de trabalho. Para onde fui, sempre levei essa bandeira. Não é por eu ser um compositor. Acredito que a produção musical brasileira realmente tem uma importância enorme e o País ainda não se deu conta disso. O Brasil não valorizou isso adequadamente, não investiu. Ainda não há o retorno cultural e econômico que podemos ter. Isso ainda está por acontecer.
Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?
EDINO KRIEGER – Acredito que as decisões que tomei na gestão à frente da Academia Brasileira de Música. Uma série de ações relevantes voltadas para a música brasileira. Gostaria de mencionar que desde os primeiros anos em que participei do Conselho Estadual de Cultura no Rio de Janeiro, sempre defendi o retorno da educação musical nas escolas. Cheguei a fazer um projeto aprovado pelo Conselho, que ficou na dormindo na secretaria e acabou não acontecendo. Era uma aspiração geral, de todo o meio musical. Recentemente, a idéia está começando a se concretizar em Brasília, com o movimento do Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Musica, que já resultou na aprovação no Senado de um projeto de lei. O esforço agora é fazer com que a lei seja aprovada na Câmara e sancionada pela Presidência da República.
O que o Edino Krieger de hoje diria ao Edino de dez anos atrás?
EDINO KRIEGER – Se eu pudesse falar comigo dez anos atrás, eu diria: “Não desiste, insiste. Essa é a maneira de conquistar uma pequena parcela daquilo que você sonhou”. Quando saí da Funarte, as pessoas me diziam: “Parabéns pelo que você fez na Funarte. Foi muito importante para música brasileira”. E eu costumava responder: “O que fiz não chega a dez por cento do que sonhei fazer”. Para conseguir um pouco é preciso pensar grande. Correr atrás do máximo para conseguir o mínimo.
Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.
EDINO KRIEGER – Posso citar alguns. Em 1999, a Osesp me encomendou uma peça, a “Passacalha para o novo Milênio”. Esta obra é bastante representativa do período e teve uma trajetória muito boa. O orquestra a tocou quinze vezes em uma turnê pelos Estados Unidos em 2002 e na turnê européia que se seguiu. Anos depois, foi tocada pela Orquestra de Bamberg, na Alemanha, pelo maestro Ricardo Rocha. Talvez seja minha peça mais divulgada. Em 2000, a Fundação Villa-Lobos do Japão organizou um evento em comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil. Fui convidado a participar. Foram executadas muitas obras sinfônicas de Villa-Lobos, Claudio Santoro, Guerra-Peixe e uma peça minha. Foi um momento muito marcante. Em 2006, outra vivência importante: fui compositor-residente do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Eu tinha participado do festival nos anos 70, quando era organizado por Eleazar de Carvalho. Fiquei surpreso com o nível internacional de qualidade. É comparável aos melhores festivais da Europa e dos Estados Unidos.
Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?
EDINO KRIEGER – Nota-se um progresso grande. O acontecimento maior foi em São Paulo, com a re-criação da Osesp e a inauguração da Sala São Paulo. É um exemplo de que quando se sonha e se propõe alguma coisa importante é preciso ter alguém com o poder de decisão na mão. Alguém que bata o martelo e diga: “Vamos fazer”... e efetivamente faz. Eu vivenciei algo parecido muito tempo antes, nos anos de 1969 e 1970, quando organizei os festivais de música da Guanabara, um marco na história da música brasileira. Cheguei modestamente com o projeto e entreguei ao então secretário de educação e cultura da Guanabara, Gama Filho, o Gaminha. Era o mês de outubro. Eu havia participado dos festivais internacionais da canção popular, visto aquela movimentação toda e comecei a pensar: “por que não se faz alguma coisa dessa magnitude para a música de concerto, que é tão importante quanto a canção popular?”. Imaginei um festival de música brasileira e levei ao secretário. Ele disse: “Vamos marcar agora a data. Vai ser dia tal de maio do ano que vem”. Ou seja, dali a seis meses. Gaminha chamou seu diretor administrativo e disse: “Doutor Orlando, esse festival vai ser feito em maio do ano que vem e vai custar tanto”. No que Doutor Orlando retrucou: “Mas não há dinheiro no orçamento para isso”. Ele disse: “Doutor Orlando, vire-se”. E a coisa aconteceu. Ou seja, é importante ter alguém com poder de decisão. Foi o que aconteceu com o governador Mário Covas em relação à Osesp.
Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?
EDINO KRIEGER – VIVAMÚSICA! é um exemplo dessa teimosia positiva, que acaba dando resultado. Acho que se não fosse uma moça simpática chamada Heloisa Fischer, que tem na cabeça a necessidade de realizar o anuário periodicamente, nada aconteceria. Os poetas têm razão: é importante sonhar. Assim se consegue realmente realizar alguma coisa. O trabalho do ANUÁRIO VIVAMÚSICA! é exemplar, espero que continue por muitos mais dez anos.
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